24.8.21

“Meus filhos pedem um pão e eu choro”: a realidade da fome no DF


“Meus filhos pedem um pão e eu até choro”, lamenta Cirlene de Araújo, 40 anos. Ela é moradora do Distrito Federal e dorme em uma barraca, com os cinco filhos, em uma rua de Águas Claras. Também em uma calçada na capital do país, na Asa Norte, Isabela Lourenço, 33, vive com a família. “Fiquei sem condições de pagar o aluguel, que estava caro, e vim para a rua. Aqui recebo comida, roupa. Coisas que, com meu dinheiro do Bolsa Família, não dá para comprar”. Histórias como essas se multiplicam com o aumento da vulnerabilidade social provocado pela pandemia, evidenciando a relação de distância de grande parte da população com alimento, moradia e emprego.

O Governo do Distrito Federal, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), informa que oferece “quase 90 possibilidades em serviço de acolhimento, gerando cerca de 2 mil vagas para crianças, adolescentes, adultos ou famílias, em locais onde as equipes buscam a reinserção social e o protagonismo pessoal de cada um dos moradores”. Em relação à alimentação, há programas como o DF Sem Miséria, Prato Cheio, Cartão Material Escolar, Bolsa Alimentação Creche e outros.

“Com o Prato Cheio, por exemplo, 35 mil famílias em insegurança alimentar e nutricional recebem cartões com crédito de R$ 250 para comprarem insumos. Neste programa está incluído o Pão e Leite, que disponibiliza R$ 35 mensais para garantir o café da manhã destas pessoas. Em outra frente, mais de 625 mil famílias foram atendidas pelo programa DF Sem Miséria no primeiro quadrimestre do ano, com valores de R$ 20 a R$ 1.045. O governador Ibaneis Rocha sancionou uma lei para conceder ainda o Cartão Gás, que vai oferecer um botijão a cada dois meses para as famílias de baixa renda beneficiadas”, ressalta a pasta, em nota.

Perfis

Nessa crise sanitária, 19 milhões de brasileiros enfrentaram a fome. Outros 43,4 milhões não tiveram alimentos em quantidade suficiente para suprir necessidades básicas. Os dados são do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), em dezembro de 2020. A pesquisa ainda levantou que a insegurança alimentar grave, caracterizada pela privação severa no consumo de alimentos, foi seis vezes maior para os desempregados.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o Brasil teve 14,8 milhões de pessoas buscando trabalho no país no primeiro trimestre deste ano. O levantamento, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou ainda 34,7 milhões de pessoas em trabalhos informais no período. Cirlene faz parte desse número. A comida que ela dará aos cinco filhos depende, principalmente, de materiais recicláveis encontrados no lixo.

“A gente faz um trabalho de reciclagem, mas muita gente ficou desempregada e começou a fazer também. É muita concorrência. A gente vai procurar material em uma lixeira e vê que três ou quatro pessoas já passaram por lá. Como entrou muita gente nisso, os lixos ficam revirados e as pessoas passam a trancar. Isso prejudica muito”, relata. O alimento da família também vem por meio de doações de “boas almas”, como ela chama, ou pequenas porções de arroz e feijão que compra fiado no mercado e paga assim que recebe o Bolsa Família.

“Já teve dia que ficamos sem ter o que comer até chegar de noite. Tive que bater na porta da casa das pessoas pedindo um pouco de comida. Meus filhos pedem um pão e eu até choro”, conta. Leite é um luxo que as crianças já não pedem mais. “Eles sabem como são as coisas. Então, quando ficam com fome, pedem um café e eu faço. Coloco a lenha que a gente pega na rua — porque o gás está caro — e pronto. De vez em quando, a gente arranca um mato e faz um chá também. Pão é raro”, explica.

Cirlene não sabe como foi parar na rua. As primeiras lembranças dela são de uma época da infância, quando ela “vivia com trombadinhas”, enfrentava problemas com drogas e batalhava para comer, sem pai nem mãe. “Mas conheci alguns enviados de Deus que me ajudaram e as coisas mudaram. Hoje, beijo meus filhos, eles falam que me amam e todos os problemas passam.” O pai dos garotos faleceu no ano passado, em decorrência da Covid-19, próximo ao período da aposentadoria.

O avanço da pandemia também tirou da família o alimento da escola, que foi fechada. “Fiquei sem saber o que fazer. A comida de lá ajudava até no fim de semana, porque sexta-feira eles traziam um lanche que dava para aproveitar depois”. Enquanto a reportagem esteve no local, Cirlene recebeu marmitas para ela e os filhos. “A bênção de Deus são essas pessoas. Esses dias um entregador de comida veio aqui, disse que tinham cancelado o pedido e deu uma janta. Abri e vi que tinha camarão. A gente fez uma festa! Dei camarão para todo mundo e ficou só um para mim, mas foi muito bom”, sorri.

Teto ou comida

Isabela Lourenço tem que escolher entre dormir em um barraco de madeirite e não conseguir alimentar a família, ou passar as noites na rua, em uma barraca, onde consegue doações de comida. Em um gramado seco e tomado por barro, uma lona sustentada por pedaços de madeira e pedras segura a casa provisória dela, do marido e dos quatro filhos, de idades entre 2 e 10 anos. Isabela morava com os garotos em Planaltina de Goiás, mas, em 2019, não conseguiu pagar o aluguel e se fixou na rua da Asa Norte para receber auxílio.

“As pessoas passam por aqui e ajudam muito. Com o tempo, até fiz meu barraco em uma invasão, mas a alimentação ficou muito difícil. Como vou pagar mais de R$ 100 só em gás se recebo só R$ 400 do Bolsa Família? Então, fico aqui”, diz. Mostrando a marmita que recebeu de doação, ela lembra dos momentos de fome. “Cheguei a comer só arroz branco com meus filhos, no começo de 2020. Às vezes, eles comiam e eu ficava sem comer. Já teve muita situação assim. É triste quando eles pedem biscoito, pão, e eu não consigo dar.”

De acordo com uma pesquisa divulgada neste mês de agosto pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), vinculado à Fundação Getúlio Vargas (FGV), o preço do “prato feito” subiu quase o triplo da inflação em um ano, com destaque para o aumento de 37,5% do preço do arroz e de 32,69% das carnes bovinas. Isabela sente a diferença na prática. “Esses dias, fui a um mercado com R$ 200 e saí com três sacolas. Leite está caro, óleo está caro. Compro mais é mistura, porque vivo de doação de arroz e feijão, e cozinho com lenha aqui.”


Busca por emprego

Marcelo*, 19 anos, cata e vende latinhas e outros materiais que encontra nas lixeiras para ajudar a família, que mora em situação irregular na cidade de Sol Nascente. Sem conseguir um trabalho formal por falta de experiências, ele conta que encontra até “gente estudada” na mesma situação. “Mas o pior é ver quem que não consegue nem fazer reciclagem, que só come o que encontra no lixo mesmo”, observa. Já Thiago Leal, 23, vende pipoca no semáforo da Asa Sul para o sustento dele e da esposa, grávida de cinco meses.

Como o dinheiro é pouco e incerto, variando de R$ 20 a R$ 60 por dia, ele pede uma oportunidade de trabalho formal, com uma faixa, enquanto oferece o produto. “Vendia pipoca no centro de Ceilândia, mas as vendas caíram, fiquei com dificuldade de pagar aluguel e vim para o Plano Piloto. Comecei a pedir emprego ao mesmo tempo, há mais de um mês. De vez em quando, aparece alguém que oferece, mas exige experiência e eu só tenho experiência nos bicos que fiz. Já trabalhei de entregador, atendente na feira, fiquei um mês no lugar de outra pessoa trabalhando de ajudante de cozinha, mas todos eram bicos.”

É o mesmo caso de Maisa Araújo, 20. “Vendo balinha e de vez em quando consigo uns R$ 20, mas a gente pede mesmo é oportunidade de emprego, porque comida acaba. Só quero trabalhar e me sustentar”. Ela, a mãe, três filhos, três irmãs e a cunhada moram em barracas embaixo de um viaduto, em Ceilândia. Ao menos dez lonas improvisadas fazem do local quase uma pequena vila às margens da pista e embaixo dos trilhos do metrô.

“A gente morava em ‘Brasilinha’ [apelido antigo de Planaltina-GO], de aluguel, mas estava R$ 400 todo mês. Ficou muito caro e tivemos que sair de lá. Um rapaz deixou a gente morando em uma casa dele, mas precisou dela de volta e a gente desocupou. Fomos para Sobradinho, Plano [Piloto] e agora estamos aqui”, relata. A doação de comida é o principal sustento da região. A solidariedade enfrenta a fome em um trabalho contínuo de empatia, mas não liquida a desigualdade. “O povo doa mais no fim de semana, então tem dia que a gente fica sem alimento. Quando é assim, a gente só pode esperar Deus mandar.”

Auxílios

Diante desse cenário de vulnerabilidade, várias organizações se movimentam para diminuir as lacunas sociais. Um dos exemplos de Brasília é o BSB Invisível, organização que dá voz às histórias de pessoas em situação de rua e conta com ações de solidariedade. “A gente trabalha com diversas ações de cunho social, como forma de resgatar a autoestima, devolver a dignidade, resgatar a cidadania”, diz uma das fundadoras, Marie Baqui.


O BSB Invisível está aberto para receber doações direcionadas à população em situação de rua. 

Os interessados em contribuir podem entrar em contato via Instagram, no @bsbinvisivel_.

 “No momento, a gente aceita doações de cobertores, cestas básicas, barracas de camping, que são muito importantes, pois é uma forma que as pessoas têm de não ficar ao ar livre quando vão dormir. 

Também aceitamos itens de higiene, itens de proteção individual, de limpeza, alimentos, como marmitas”, cita.

*O entrevistado não quis se identificar


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