Esta poderia ser a síntese de It, uma das obras mais cultuadas do aclamado escritor estadunidense Stephen King. A obra, escrita em 1986, acompanha sete pré-adolescentes da cidade fictícia de Derry, que são aterrorizadas por uma entidade sobrenatural maligna que eles conhecem apenas como "It". A criatura tem a capacidade de mudar de forma e usa os maiores medos de suas presas contra elas, embora tenha preferência por se disfarçar como um palhaço de circo chamado Pennywise (Bill Skarsgård). O romance alterna entre dois períodos de tempo, entrelaçando a história das crianças com a dos adultos que eventualmente se tornarão.

A gigantesca obra literária, que se estende por mais de mil páginas, foi primeiramente adaptada como uma minissérie para a televisão em 1990, marcada por cortes no orçamento e restrições na sua duração, resultando em uma adaptação enxuta, com cerca de 3 horas. Na transposição da obra para o cinema, optou-se por dividi-la em dois capítulos, separando as duas temporalidades. No primeiro capítulo, a decisão funciona, pois dá mais espaço para explorar os personagens e  ambientação da trama, que substitui os anos 50 do livro pelos anos 80, uma calculada aproximação com Stranger Things, a série saudosista do momento, e o clássico Os Goonies (1985).

O sucesso do primeiro capítulo garantiu a produção de It - Capítulo 2 (2019), e o retorno do diretor Andy Muschietti, que assinou o longa anterior. Situada nos dias atuais, a história reúne os personagens após o ressurgimento de It, que para alguns dos membros do “Clube dos Otários” - como os personagens intitulam o grupo - não passa de uma lembrança esmorecida. É no primeiro ato deste segundo capítulo que o filme melhor funciona, reencontrando seus protagonistas repetindo os erros do passado e ainda marcados por seus traumas, explicando o porquê a mera menção de algo que acreditavam ter esquecido é suficiente para desestabilizar o grupo e reuní-los novamente na cidade que deixaram para trás.

Antes de qualquer outro aspecto, o acerto mais evidente desta sequência como um todo é a escalação do elenco adulto, escolhidos a dedo pelo produtor de elenco Rich Delia para refletir suas contrapartes adolescentes. Bill Hader e James Ransone roubam a cena como Mike Hanlon e Eddie Kaspbrak, capturando perfeitamente os maneirismos que os atores mirins deram aos personagens no capítulo anterior.

Com personagens cativantes e um vilão já conhecido, It - Capítulo 2 perde força ao povoar sua longa minutagem - são 2 horas e 49 minutos de filme! - com uma certa previsibilidade em torno das obrigatórias “sequências de terror”, onde cada um dos personagens enfrenta individualmente a corporificação de seus - já conhecidos - medos. Além disso, há a questão do retorno ao período retratado no filme anterior. Se no livro o paralelo entre o enfrentamento dos traumas no passado e presente se dá por tanto por questões temáticas quanto estruturais, no filme, a revisitação do período da da adolescência dos personagens parece pouco acrescentar à história como um todo e se mostra mais preocupada em encaixar mais sequências de terror e “sustos”.

No primeiro filme, o terror, ainda que intenso, estava adequadamente nivelado com seus jovens protagonistas e servia para contar uma história de amadurecimento através do enfrentamento de seus traumas corporificados. Já na sequência, este elemento se mostra mais desconexo com o desenvolvimento dos personagens e temas do filme, alternando desajeitadamente entre o tom de situações de violência realista, como um brutal ataque homofóbico ou uma cena de violência doméstica envolvendo Beverly (Jessica Chastain), com o transformismo fantasioso e ligeiramente cômico de Pennywise, lamentavelmente diluído em meio às sequências repletas de efeitos especiais.

São decisões estranhas, que atrapalham o andamento da narrativa e sinalizam posições contraditórias enquanto adaptação coesa, ao se preocupar em tornar a narrativa mais "palatável" e se mostrar mais dependente da estrutura narrativa relacional que havia habilmente descartado no capítulo anterior. No terceiro ato, o filme recupera um certo fôlego em termos dramáticos, especialmente quando “resolve” os arcos de seus personagens, mas se perde ao dar espaço para uma estranha explicação da “mitologia” em torno de It e prova que a históra funciona melhor quando foca mais nos efeitos causados pelo monstro do que no monstro em si.

Seguindo a cartilha das sequências que entregam mais de tudo aquilo que deu certo na primeira vez, It - Capítulo 2 prova que "muito de uma coisa boa pode ser demais". Como Pennywise aprende, não se pode ter sucesso repetindo os mesmos truques.

Por Pedro Mendes
Artigo originário do TrêsMeiaCinco Filmes

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