Para o escritor Uranio Bonoldi, o mercado vive um processo de adaptação das exigências e expectativas, com cada vez maior atenção ao desgaste dos colaboradores

Uma análise do Frank Recruitment Group, agência global de recrutamento, alertou para um disparo no número de buscas, no Google, por desculpas para faltar ao trabalho. Nos EUA, em 2022, foram 2 milhões de pesquisas sobre esse conteúdo, enquanto em 2018 eram apenas 300 mil. O que explica esse fenômeno é o retorno do trabalho presencial no contexto pós-pandemia, o que também é vivenciado no mercado brasileiro. Para o escritor Uranio Bonoldi, especialista em carreira, negócios e tomada de decisão, no cenário em que se discute o “quiet quitting'' e a grande onda de demissões em todo o mundo, a busca por desculpas para não trabalhar é sinal de adequação nas relações de trabalho.

“A tensão entre colaboradores e gestores é cada vez mais tangível", diz o escritor, autor de “Decisões de alto impacto: como decidir com mais consciência e segurança na carreira e nos negócios”. De um lado, os líderes que precisam de trabalhadores comprometidos com o desempenho da empresa, para que possam superar as dificuldades econômicas globais. De outro, colaboradores que buscam um equilíbrio entre vida profissional e pessoal. “Muitos já não veem propósito em se entregar de corpo e alma ao trabalho, muitas vezes abrindo mão do próprio bem-estar, para que a instituição prospere. É uma conta que, para muitos, não fecha, por isso se observa esse desinteresse”, opina.

Assim como no caso do “quiet quitting”, situação em colaboradores fazem apenas o mínimo exigido sem buscar melhor desenvolvimento do serviço, a busca por desculpas para não trabalhar é uma forma que os colaboradores têm encontrado de limitar o tempo e a energia que estão dispostos a oferecer para seus empregadores. “Porém, essa não é a forma ideal de se lidar com o problema. Reduzir o próprio desempenho no trabalho para demonstrar insatisfação só pode trazer prejuízos para sua própria carreira profissional e desenvolvimento da pessoa como indivíduo. O caminho correto é buscar um diálogo aberto, apontar suas reivindicações, buscar soluções, e em último caso até mesmo se organizar para buscar outro trabalho que confira claramente um propósito de vida. Onde não há propósito, comunhão de valores, fica difícil encontrar motivação”, diz.

Movimentos como a demissão em massa também sinalizam essa busca dos colaboradores por uma qualidade de vida que não encontravam, especialmente antes da pandemia. “A síndrome do burnout já vem sendo discutida por causa disso. O trabalho, muitas vezes até por má gestão, se torna desgastante e causa prejuízos para a saúde, para o psicológico do trabalhador. Nesses dois últimos anos, com suas tribulações, muitos começaram a repensar se estavam de fato ocupando cargos que os deixavam realizados, por isso estão preferindo se demitir e encontrar oportunidades melhores”, aponta.

O escritor ressalta que o problema não é meramente geracional, no qual os mais jovens estariam meramente sem vontade de trabalhar. “Esse é um tipo de crise que afeta diferentes faixas etárias e setores da economia, especialmente cargos com maior grau de especialização, no qual os trabalhadores podem se dar o luxo de ficar sem trabalho. O que se vê, portanto, é uma tendência global à adequação das relações de trabalho. Alguma solução precisará ser encontrada para que empresas funcionem e colaboradores tenham qualidade de vida assegurada”, opina.

Para Bonoldi, o mercado de trabalho precisa estar atento a esse comportamento para criar formas de atrair bons profissionais e garantir que mantenham maior interesse pelas suas atribuições e responsabilidades. “O principal caminho é o diálogo franco com os colaboradores, ouvindo deles suas colocações e propondo soluções vantajosas tanto para eles quanto para a empresa”, opina. Manter os colaboradores motivados é um desafio que gestores não podem abrir mão de enfrentar. “É muito ruim para os negócios ter trabalhadores desinteressados, que atuam no modo automático e não são participativos. É importante, portanto, pensar em meios de mantê-los engajados sem que isso signifique tomar deles mais tempo e energia que o necessário, impedindo-os, por exemplo, de ter tempo livre para o lazer e para o descanso recuperador ”, finaliza.

Sobre o autor:

Uranio Bonoldi é palestrante e especialista em negócios e tomada de decisão, e professor do Executive MBA da Fundação Dom Cabral, onde leciona sobre "Poder e Tomada de Decisão". Educado pelo método Waldorf, sua graduação e em seguida a pós-graduação em administração de empresas foi feita na FGV-SP. Atuou em grandes empresas como diretor e CEO. 

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