Homem de terno moderno segurando um livro no centro de uma cena surreal dividida entre um portal sombrio de Seteálem e ruínas gregas clássicas com o pensador de Sócrates, ilustrando a relação da psicologia e filosofia com universos paralelos.
Por Alessandro Turci - 

Setealém existe mesmo? Descubra o que a psicologia e a filosofia dizem sobre essa lenda urbana e o fascínio por universos paralelos. Leia mais!

O balanço seco da suspensão do ônibus na avenida periférica tem uma cadência quase hipnótica. Enquanto a luz amarelada dos postes traga a poeira do asfalto, observo os rostos cansados ao meu redor. Olhos fixos em telas luminosas, mentes ansiando por um refúgio do cotidiano massacrante. Há quase duas décadas, lidero a infraestrutura de TI em uma grande indústria de componentes elétricos, lidando diariamente com fios, interruptores e conectores. 

Meu trabalho é garantir que a energia flua sem interrupções, que os circuitos fechem e que a lógica preditiva mantenha o sistema funcional. Contudo, como um Projetor no Desenho Humano, minha mente opera buscando os padrões invisíveis que sustentam a estrutura. E quando observo a rotina humana no chão de fábrica do cotidiano, percebo que todos nós buscamos, desesperadamente, um atalho para fora da matriz.

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Foi exatamente em uma viagem noturna, parecida com essa, que resgatei da memória um mistério que me persegue desde os tempos do antigo Orkut. Um fenômeno digital e psicológico que começou como um sussurro nas redes e se transformou em uma lenda urbana contemporânea. Refiro-me ao mito de Setealém, aquele suposto universo paralelo sombrio, acessado por engano através de um ônibus errado ou de uma porta esquecida. A pergunta que muitos fazem na internet, afinal, é se Setealém existe mesmo ou se criamos esse espaço mental coletivo para suportar o peso da existência ordinária.

Quando lemos sobre a gênese dessa narrativa, que ganhou proporções globais após ser citada em listas digitais e fóruns, vemos a abertura de uma verdadeira caixa de Pandora. O autor original compartilhou uma vivência estranha e, de repente, centenas de pessoas alegaram ter sentido a mesma atmosfera claustrofóbica. Relatos foram parar na Biblioteca Nacional e no Writer's Guild, desenhos de criaturas de olhos fundos foram catalogados e o nome virou marca, canal de vídeo e até ecossistema de ficção. Mas o que há por trás desse desejo ardente de validar o intangível?

A engenharia do mito na era do excesso de telas.

Como estudioso obstinado da mente e dos sistemas, não preciso de um diploma pendurado na parede para compreender a mecânica da psique. A autoridade de um pensador independente vem da capacidade de conectar pontos que a ciência positivista costuma negligenciar. 

A história de Setealém funciona exatamente como um protocolo de rede distribuído. Quando uma informação é lançada sem um servidor centralizado, os nós da rede começam a replicar essa informação, adicionando camadas de processamento individual. 

Cada pessoa que relata ter visto o mundo ficar escuro e decrépito está, na verdade, doando um pouco do seu próprio repertório sintomático para a construção do mito.

Na psicanálise, Carl Jung nos presenteou com o conceito do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Setealém não é um lugar físico demarcado por coordenadas geográficas, mas sim a exteriorização do nosso próprio abismo psíquico. 

O ser humano não suporta a futilidade da rotina mecânica sem um toque de mistério. Viver na lógica contínua de acordar, pegar o transporte público, bater o ponto e retornar ao lar exige uma válvula de escape. 

A ideia de que existe uma dimensão paralela, assustadora e visceral logo ao lado do nosso trajeto habitual é, paradoxalmente, libertadora. Ela nos diz que o mundo não é apenas essa matéria fria de tomadas e conexões de alumínio.

Para o filósofo francês Jean Baudrillard, vivemos na era dos hiper-realismos e dos simulacros, onde a imagem e o relato ganham mais força produtiva do que o fato em si. Quando a dúvida sobre se Setealém existe mesmo toma conta de fóruns virtuais, o simulacro já venceu a realidade. A narrativa ganha vida própria porque atende a uma necessidade mercadológica e emocional. 

O medo do desconhecido é o combustível mais arcaico e poderoso da humanidade. Ao catalogar essas histórias e registrá-las formalmente, a sociedade tenta colocar ordem no caos, transformando o horror abstrato em uma mercadoria cultural consumível.

O viés da confirmação e a busca pelo abismo.

Do ponto de vista da psicologia cognitiva, estamos diante de um clássico caso de viés de confirmação articulado à apofenia, que é a tendência humana de encontrar padrões significativos em dados aleatórios. Quando você é exposto à ideia de que um ônibus pode mudar de rota e levá-lo a um bairro sombrio, qualquer desvio de trajeto, qualquer iluminação trêmula no vagão do trem desperta um alerta sutil. 

A mente humana é uma máquina de antecipar cenários de risco. Se milhares de indivíduos relatan experiências semelhantes, isso não prova a existência metafísica do local, mas prova a assustadora homogeneidade do nosso sofrimento psicológico.

Nós compartilhamos os mesmos pesadelos porque compartilhamos a mesma estrutura cerebral e as mesmas angústias sociais. 

O filósofo estoico Sêneca nos lembrava de que sofremos mais na imaginação do que na realidade. Ao nos debruçarmos sobre a possibilidade de que Setealém existe mesmo, estamos transferindo o nosso medo da solidão, do envelhecimento e do esquecimento para um cenário de ficção de terror. É infinitamente mais sedutor acreditar que o mundo ao nosso redor esconde portas secretas para dimensões sombrias do que aceitar a aridez de uma vida sem propósito transcendente.

Em minha rotina na gestão de sistemas de TI, aprendi que um erro de código nem sempre é um defeito. Às vezes, é uma brecha que revela como a arquitetura inteira foi construída. Fenômenos virtuais como Setealém são as brechas no código da nossa cultura hiperconectada. Eles revelam que, por mais que a tecnologia nos isole em bolhas individuais, ainda ansiamos por sentar ao redor da fogueira e contar histórias de assombração. O Orkut morreu, o BuzzFeed mudou, mas a necessidade de criar mitologias urbanas permanece intacta em nossa matriz biológica.

O que aprendemos?

A mente humana prefere o mistério aterrorizante ao vazio do tédio diário. A popularização de teorias e universos paralelos mostra como usamos a fantasia coletiva para dar um tom de drama e significado a uma rotina puramente mecânica e desprovida de magia.

A ficção compartilhada gera conexões sociais profundas. A forma como essa narrativa se espalhou pelo mundo prova que os mitos modernos não surgem mais de escrituras antigas, mas sim da validação mútua em fóruns digitais, onde a dor e a imaginação de um indivíduo encontram eco na experiência do outro.

A realidade é uma construção frágil mantida pela nossa atenção seletiva. O estudo sobre se Setealém existe mesmo revela que aquilo que chamamos de mundo real é apenas uma camada superficial de acordos sociais. Quando a mente desacredita do sistema por um segundo, o abismo da dúvida psíquica se abre imediatamente.

A lâmpada trêmula e o sinal aberto.

A viagem se aproxima do fim. O motor do ônibus reduz a marcha enquanto o sinal vermelho pisca na esquina. Olho pela janela e vejo o reflexo do meu próprio rosto no vidro sujo, sobreposto às luzes desbotadas da cidade. 

A grande ironia da condição humana é que não precisamos atravessar portais dimensionais para encontrar um universo sombrio e desconhecido. Ele habita silenciosamente nas dobras da nossa própria consciência, nos pensamentos que evitamos ter quando a luz do quarto se apaga, ou na estranheza momentânea de não reconhecer a própria vida.

Setealém talvez seja apenas o nome que damos para aquele segundo de vertigem em que a rotina perde o sentido e o tecido da realidade parece desfiar. Não importa se os relatos são produto da literatura, do marketing ou de surtos de imaginação coletiva. 

O fato é que o mito cumpre o seu papel: ele nos obriga a olhar para fora da tela do celular e questionar a estabilidade do chão onde pisamos. Os conectores da nossa mente continuarão buscando faíscas de mistério, porque viver sem o invisível é uma condenação que a alma humana se recusa a aceitar.

Quando você entrar no transporte público amanhã e o motorista pegar um caminho ligeiramente diferente do habitual, qual será o primeiro pensamento a cruzar a sua mente?

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