Ilustração 3D estilizada da banda brasileira RPM em performance épica, com luzes vibrantes e atmosfera retrô dos anos 90
O Fenômeno RPM por Alessandro Turci

O que o auge e a queda do RPM nos anos 80 nos ensinam sobre nossas próprias dinâmicas de ego? Entenda como o sucesso pode fragmentar nossas relações.

A Explosão do RPM e o Espelho do Ego

A história do fenômeno RPM não é apenas um registro sobre música; é um tratado profundo sobre a psique humana, o peso do sucesso estrondoso e a fragilidade das construções coletivas diante do ego inflado. Quando olhamos para o Brasil de 1986, imerso na transição política e na efervescência cultural das Diretas Já, o RPM surgiu como um cometa que cruzou o céu da música nacional. Quatro rapazes de Ermelino Matarazzo ou de qualquer canto urbano podiam se enxergar ali, mas o que aconteceu no topo do mundo pop brasileiro revela os padrões sistêmicos que regem nossas próprias vidas: a incapacidade de sustentar o crescimento quando não estamos ancorados internamente.

Sistemicamente, o sucesso avassalador funciona como uma lente de aumento para as nossas sombras. O RPM trouxe teclados modernos, uma estética new wave impecável e letras urbanas que dialogavam com os anseios de uma juventude que saía de anos de censura. No entanto, ao vender milhões de cópias com o fenômeno RPM e lotar estádios como o Morumbi, a dinâmica interna da banda começou a repetir o clássico padrão da exclusão e da disputa de território, algo muito estudado pela psicologia analítica e pelas constelações sistêmicas. Em um grupo, assim como em uma família ou em um sistema ancestral, quando a ordem e o pertencimento são negligenciados em nome do destaque individual, o colapso é inevitável.

O filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella costuma lembrar que a soberba é o início da decadência, pois nos cega para a importância do outro na nossa construção. No RPM, o conflito entre a imagem magnética do vocalista e a genialidade dos músicos de bastidor criou uma fenda intransponível. O ego individual buscou anular a força do coletivo. Sempre que esquecemos as nossas bases, as nossas origens e aqueles que caminharam conosco no início da jornada, o sistema cobra o seu preço através da ruptura. O fenômeno RPM nos ensina que o verdadeiro sucesso exige sustentação emocional e maturidade para compreender que nenhum indivíduo é maior do que o sistema ao qual pertence.

Isso tudo me lembra muito os domingos aqui no meu quintal em Ermelino Matarazzo. Imaginem a cena: churrasqueira acesa, o cheiro de carvão misturado com a fumaça da gordura da costela, os tios discutindo futebol e, de fundo, o rádio de pilha sintonizado na FM broadcasteando aquela batida eletrônica inconfundível. Minha mãe limpando a mesa, meu pai com o copo de cerveja na mão, e a molecada disputando o último pedaço de maionese.

Ali, naquela simplicidade, a gente via o Brasil mudar. O RPM era a trilha sonora daquele churrasco. Todo mundo achava que o sucesso daqueles caras era eterno, que eles eram super-heróis intocáveis. Mas a verdade é que, na primeira grande briga por causa de dinheiro ou de quem aparecia mais na revista Placar ou na Capricho, a banda racha.

É igualzinho ao primo que montou uma oficina, começou a ganhar um dinheirinho bom, comprou um Santana completo e esqueceu do irmão que ajudava a bater chave no começo. O sucesso sobe para a cabeça, a gente estufa o peito na mesa de família, acha que resolve tudo sozinho e se isola. No fim, a gente descobre que sem a base, o churrasco azeda e a música para de tocar.

Olhando para as Próprias Sombras

Para aplicar as lições do RPM no nosso cotidiano, precisamos fazer um mergulho corajoso na exploração do inconsciente. O ego é um excelente servo, mas um péssimo mestre. Quando vivenciamos momentos de ápice, seja uma promoção, um relacionamento desejado ou o reconhecimento social, nossa tendência natural é inflar, escondendo na sombra as nossas inseguranças e vulnerabilidades.

A individuação exige que saibamos regular nossas emoções diante dos aplausos. É preciso desenvolver a disciplina de olhar para o espelho e perguntar: Eu estou valorizando as engrenagens que me trouxeram até aqui?. Nos relacionamentos, a falta de empatia e a necessidade de ser o centro das atenções rompem casamentos e parcerias comerciais da mesma forma que destruíram a formação clássica da banda. O aprendizado contínuo aqui é entender que todo progresso duradouro é fruto de um ecossistema saudável, e não de um esforço isolado.

A Sociedade do Espetáculo e o Descarte do Outro

Vivemos em uma cultura que idolatra o palco e despreza os bastidores. A história do rock nacional dos anos 80 reflete perfeitamente a transição do Brasil para a sociedade do espetáculo, onde a imagem frequentemente consome a essência. Queremos o brilho do moicano, a maquiagem perfeita e o close da câmera, mas negligenciamos a afinação precisa dos teclados que dão sustentação à melodia da vida.

Essa busca incessante pelo aplauso individual gera uma miopia social profunda. Filósofos contemporâneos apontam como a modernidade nos transformou em empreendedores de nós mesmos, transformando relações humanas em meras pontes utilitárias para o sucesso pessoal. Quando o outro passa a ser visto apenas como um coadjuvante do nosso show particular, quebramos os laços de solidariedade básica. A tragédia moderna não é a falta de talento, mas a incapacidade crônica de conviver com o sucesso alheio sem se sentir diminuído, transformando potenciais parcerias em campos de batalha de vaidades vazias.

O Tabuleiro da Vaidade

Pensando bem, o destino de grandes egos me lembra muito as tardes de sábado dos anos 80, quando eu reunia os amigos no quarto para jogar War ou Banco Imobiliário. A gente passava na locadora do bairro, pegava uma fita de terror em VHS, comprava uns doces na bomboniere e passava o resto do dia ao redor da mesa de centro.

No Banco Imobiliário, sempre tinha aquele amigo que dava sorte nos dados logo nas primeiras rodadas. Ele comprava a Avenida Paulista, o Bradesco, começava a construir casinhas e hotéis e, em cinco minutos, o ego do sujeito operava em rotação máxima. Ele começava a rir dos outros, cobrava os aluguéis com um tom de deboche e se sentia o próprio barão do café. Ele esquecia que o jogo roda, que os dados são traiçoeiros e que a cartela de (Vá para a prisão) estava logo ali na curva.

Dito e feito: bastava uma rodada ruim, uma parada no terreno de outro jogador, e o império desmoronava. O sujeito perdia tudo, ficava emburrado, virava o tabuleiro e acabava com a diversão de todo mundo. O RPM foi o amigo que faliu no Banco Imobiliário da vida real. Eles dominaram o tabuleiro do Brasil, ganharam todas as propriedades, mas não souberam gerenciar a fortuna invisível das relações humanas. No final, o jogo acabou, os discos de vinil ficaram pegando pó na prateleira e a nostalgia virou um lembrete de que nenhum império de plástico dura para sempre.

Conclusão Analítica

Analisar a trajetória do RPM nos permite enxergar as entranhas da cultura pop e do comportamento humano com muito mais clareza. Eles foram gigantescos, ditaram a moda, a sonoridade e o comportamento de uma geração inteira que saía da opressão política e buscava desesperadamente por identidade. Mas a velocidade com que desmoronaram nos deixa um aviso claro sobre a sustentabilidade de tudo o que construímos.

A relevância emocional dessa história reside no entendimento de que os nossos maiores inimigos raramente estão do lado de fora; eles habitam as nossas próprias ambições desmedidas e o nosso orgulho. O colapso do grupo serve como um espelho social que nos convida a repensar a forma como gerenciamos nossas vitórias. Celebrar o topo é maravilhoso, mas é a qualidade das nossas relações e o respeito mútuo que garantem que não despencaremos do penhasco logo em seguida.

O que aprendemos?

  • O sucesso sem base interna é volátil: Grandes conquistas exigem uma estrutura emocional e psicológica igualmente robusta para que não se transformem em autodestruição.
  • Nenhum sistema sobrevive ao egoísmo: Seja em uma banda de rock, em uma empresa ou em um casamento, a desvalorização dos bastidores e das parcerias rompe a ordem sistêmica e causa a ruína do coletivo.
  • A imagem não substitui os vínculos: O brilho exterior e a aprovação social são passageiros; o que permanece e sustenta a nossa história ao longo das décadas são o respeito mútuo e a preservação das nossas bases reais.

Agradeço por você ter chegado até aqui. Poucos têm a disciplina de se dedicar à leitura, e isso já o coloca em um grupo diferenciado: pessoas que buscam ir além, que não se contentam com o óbvio.
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