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| Kichute por Alessandro Turci |
O Kichute era indestrutível. Como a perda desse símbolo de resistência reflete as nossas dores profundas e a busca por identidade? Descubra aqui.
Eu me recordo perfeitamente do cheiro de borracha nova misturado ao pó de tijolo do campinho de terra batida na Zona Leste de São Paulo. Falar sobre o Kichute não é apenas resgatar uma memória calçadista, é abrir o baú de uma psique coletiva brasileira que foi moldada pela escassez, mas que trazia no peito uma indomável capacidade de resistir.
O Kichute, lançado pela Alpargatas em 1970, carregava uma promessa implícita: aguentar o tranco. Ele pesava quase meio quilo, machucava o calcanhar nos primeiros dias e exigia que o cadarço desse duas voltas no tornozelo, mas ele não quebrava. Essa resistência material espelhava a própria alma do brasileiro da periferia daquela época, que precisava ser duro como pedra para sobreviver às intempéries sociais.
Do ponto de vista sistêmico, o Kichute representava um nivelamento arquetípico. Em uma foto escolar dos anos 80, a homogeneidade nos pés das crianças sinalizava que pertencíamos ao mesmo solo, compartilhávamos da mesma ancestralidade de luta e das mesmas dinâmicas de sobrevivência.
Na visão do psicólogo Carl Jung, os objetos que escolhemos e com os quais convivemos tornam-se extensões de nossos complexos internos. O Kichute funcionava como uma armadura para a nossa vulnerabilidade.
Nós honrávamos o esforço de nossos pais, que compravam um único par para o ano inteiro, extraindo dele o máximo de proveito na escola, na pelada e na vida. Havia uma dignidade profunda em calçar o que era acessível e transformá-lo em sinônimo de identidade e de potência criativa na rua.
Se a gente estivesse agora sentados na calçada, com o sol de fim de tarde castigando o asfalto e um rádio de pilha tocando de fundo o samba enredo daquele ano ou uma canção do mestre Cartola, eu te diria que o Kichute foi o maior filósofo que o Brasil já teve.
O sujeito olhava para aquele calçado de lona preta e bico reforçado e entendia o recado da vida: aguenta o tranco, rapaz. O brasileiro daquela época tinha o costume de valorizar o que durava. A mãe lavava o tênis no tanque com sabão em barra, escovava com força, e o bicho saía dali pronto para mais uma jornada de poeira e pedrada.
O Kico, como a gente chamava na intimidade, era o retrato de um país que não tinha frescura, que resolvia as coisas na raça e que encontrava poesia no meio do barro.
Para aplicarmos o simbolismo do Kichute no nosso cotidiano atual, precisamos fazer uma descida ao porão da nossa mente, encarando a Consciência das Sombras.
Hoje, vivemos na era do descartável, onde qualquer frustração ou defeito nos faz querer trocar de pele, de parceiro ou de objetivo. O Kichute nos ensina o valor da individuação, que é o processo de nos tornarmos inteiros, aceitando as nossas próprias imperfeições e calos.
A regulação das emoções passa por entender que, assim como o calçado de borracha pura precisava de três dias para se moldar ao nosso pé, os nossos processos internos de amadurecimento também exigem tempo e paciência.
Desenvolver empatia e disciplina significa olhar para a nossa história, reconhecer o suor dos que vieram antes de nós e manter o aprendizado contínuo mesmo quando o terreno da vida se apresenta acidentado, sem o amortecimento das facilidades modernas.
A morte do Kichute, decretada em 1996 com a abertura das importações e a consolidação do Plano Real, não foi apenas um fenômeno econômico, foi uma virada de chave cultural e psicológica na sociedade brasileira.
O sociólogo Zygmunt Bauman definiu muito bem a nossa contemporaneidade como uma modernidade líquida, onde tudo se dissolve rapidamente e os vínculos humanos se tornam frágeis. Ao trocarmos o Kichute pelos amortecedores tecnológicos importados, trocamos também a nossa tolerância à frustração pelo fetiche da mercadoria.
Como bem alertava o pensador brasileiro Paulo Freire sobre a importância da leitura do mundo, nós paramos de ler a nossa realidade através do esforço coletivo e passamos a buscar a nossa validação no consumo.
O status, que antes vinha de quanto o seu tênis estava gasto de tanto jogar e viver, passou a ser ditado pelo preço da etiqueta. Essa transição gerou um vazio existencial profundo, uma dor na alma coletiva que tenta camuflar a falta de pertencimento com o acúmulo de objetos descartáveis, fragmentando os nossos relacionamentos e a nossa capacidade de criar casca grossa diante das dificuldades.
Se eu pudesse sintonizar a máquina do tempo da minha mente na frequência dos anos 90, me veria correndo até a locadora do bairro para alugar uma fita cassete de um filme de terror espacial ou folheando as páginas heróicas de um gibi da Espada Selvagem de Conan.
Naquela época, a vida parecia um grande jogo de RPG de mesa, onde cada amigo da rua representava uma classe de personagem diferente. O Kichute era o nosso item de defesa lendário, a nossa bota de sete léguas que nos dava bônus de resistência contra os monstros do cotidiano.
Lembro de uma tarde em que nos reunimos no quintal para bater figurinhas no jogo do bafo. Um dos garotos, que ostentava um calçado importado novinho, cheio de cores e luzes, desafiou o bando.
Ele parecia um guerreiro futurista saído de um jogo de Nintendo 8-Bits, cheio de pompa, mas sem nenhuma estabilidade no chão de terra. Quando a disputa começou e a poeira subiu, o solado carrapeta do meu Kichute velho grudou no chão com a firmeza de um guerreiro cimério.
Ganha quem tem mais aderência com a realidade. Enquanto o tênis de playboy escorregava na primeira investida, o meu Kico fincava o pé, garantindo a vitória e as figurinhas da rodada.
Aquilo me mostrou que o excesso de aparatos e tecnologias muitas vezes serve apenas para nos afastar do chão da vida, nos tornando presas fáceis quando o jogo de tabuleiro do destino resolve mudar as regras sem aviso prévio.
Analisar a trajetória do Kichute nos permite compreender que a verdadeira força de um indivíduo, ou de uma nação, não reside na sofisticação de suas ferramentas, mas sim na robustez de sua estrutura interna.
O calçado de lona e borracha deixou de existir porque o mundo mudou, mas a necessidade humana de encontrar firmeza no caminhar permanece idêntica. Ele permanece na nossa memória como um monumento à simplicidade voluntária e à eficiência sem rodeios.
Olhar para trás e saudar essa herança não é um mero exercício de nostalgia barata, mas sim um ato de resgate arquetípico. Precisamos reincorporar a essência do Kichute no nosso cotidiano, redescobrindo o valor daquilo que é feito para durar, suportando as pressões do ambiente com a dignidade de quem sabe exatamente de onde veio e qual chão está pisando.
O que aprendemos?
- A verdadeira resiliência é construída no confronto direto com a realidade nua e crua, e não na busca constante por facilidades ou amortecimentos artificiais.
- O valor de um indivíduo está na sua utilidade prática e na sua capacidade de honrar suas origens, e não nas etiquetas de status que ele ostenta para o mundo.
- Amadurecer exige tempo, paciência e disposição para suportar o desconforto inicial, permitindo que a vida molde a nossa estrutura interna.
Agradeço por você ter chegado até aqui. Poucos têm a disciplina de se dedicar à leitura, e isso já o coloca em um grupo diferenciado: pessoas que buscam ir além, que não se contentam com o óbvio.


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